A origem do Carnaval

Através da celebração das grandes colheitas, alguns povos da Antiguidade (como hebreus, egípcios, gregos e romanos) já celebravam o Carnaval, louvando suas divindades pela fertilidade do solo. Já se acreditou que a etimologia da palavra "carnaval" remontasse a "carrum navalis" (carro naval). Essa origem, porém, já foi contestada, e  atualmente a versão mais aceita é a que liga "carnaval" a "carne vale" (ou seja, "adeus à carne").


("A juventude de Baco", de William Adolphe Bouguereau, 1884 - Fonte: Wikipedia)


Hiram Araújo, autor do livro "Carnaval: seis milênios de história" (Gryphus, 2002) comenta que o Carnaval celebrado na Antiguidade era uma celebração na qual eram "marcados pela licença sexual e pela inversão dos papéis entre servos e senhores, como também pela escolha de um escravo real que era sacrificado no final da celebração." Na Grécia Antiga, por exemplo, eram realizadas as famosas Festas Dionísicas, celebrações em homenagem a Dionísio. (Seu equivalente romano é Baco, o deus do vinho, sendo a ele atribuído os excessos sexuais). Além da festa ao deus Baco, celebrava-se também a Saturnália, onde os principais valores sociais da época eram invertidos e todo o tipo de prática era realizada sem entraves sociais e tabus chegando até ao sacrifício humano. A comemoração durava cerca de três dias e todo o tipo de atividade escolar e comercial era encerrada. Já na Idade Média, as Bachanalias (deriva daí o termo "bacanal") e Saturnalias eram realizadas uma vez ao ano. Neste período, em que a Igreja começava cada vez mais a exercer seu papel social e político, essas celebrações de origem pagã ganharam conotação negativa dentro dos parâmetros religiosos. Algumas intervenções por parte da Igreja foram realizadas, como tentativa de reduzir a prática das festas, consideradas abomináveis pelo Catolicismo.


("The Mardi Gras March & Two-Step", capa de um livro de partituras, publicada em 1897
por E.T. Paull Music Co, Nova Iorque - Fonte: Internet)


Em 590 d.C. o papa Gregório I instituiu a festa do Carnaval no calendário eclesiástico. Suportado com certa tolerância pela Igreja (no século XV, o papa Paulo II foi uma das figuras religiosas mais tolerantes à prática do Carnaval, permitindo que se realizassem comemorações na Via Ápia, rua próxima ao seu palácio), o Carnaval tornou-se uma das poucas festas que mantiveram suas origens pagãs após indexação católica, restringindo-se aos dias que antecedem o início da Quaresma. (Em contraste com a Quaresma, tempo de penitência e privação, os três dias do Carnaval são chamados "gordos" - em especial a terça-feira, conhecida como terça-feira gorda; em francês, Mardi Gras). "Quando o cristianismo chegou, já encontrou as festas, ditas orgiásticas, em uso nos povos. Por seus caracteres libertinos e pecaminosos, foram a principio condenadas pela Igreja Católica. Teólogos, doutores e papas da Igreja, como São Clemente de Alexandria (escritor e doutor da Igreja - 150-213 d.C), Tertuliano (teólogo romano, Cartago -155-216 d.C, grande pensador polemista dos primeiros séculos da Igreja, combateu tenazmente o relaxamento dos costumes); São Cipriano (Bispo e mártir; padre da Igreja latina, Cartago, iniciado no século III. Foi decapitado por ocasião das perseguições de Valério); Inocêncio II (Papa, Roma - 1130-1140), entre outros, foram contra o carnaval." (1)

Em um artigo para a revista História Viva #35 (Dezembro, 2011) o romancista francês Édouard Brasey conta que na noite de 1º de janeiro de 1091, Walchelin, um jovem clérigo que servia na igreja de Bonneval, França, teria testemunhado um imenso exército, reconhecendo pessoas recentemente falecidas que não haviam tido tempo de se arrepender de por seus crimes. Segundo ele, a tropa era negra e cuspia fogo. Walchelin teria então interpretado que essa horda apavorante de almas seria a famosa lenda da tropa Hellequin. Walchelin teria assistido "ao desfile de cortesãs da cavalaria, colocadas sobre celas cheias de pregos incandescentes. Esses pregos em brasa feriam-lhes as nádegas e, horrivelmente atormentadas por essas picadas e esses ferimentos, elas gritavam: 'Ai de mim!' 'Ai de mim!', e confessavam diante de todos os pecados pelos quais sofriam tais castigos." Brasey ainda afirma que "o grupo liderado por Hellequin, na pena do monge cristão, não seria portanto senão uma 'caçada ao diabo', no qual os pecadores impenitentes eram arrastados depois de sua morte para expiar seus crimes." Como forma de aumentar o número fiéis através de conversões em massa ao catolicismo, "o espetáculo servia de advertência aos vivos que não se arrependessem a tempo", completa. 


(À esquerda, Arlecchino, ou Arlequim, um personagem do teatro popular italiano inspirado na lenda de uma tropa de pecadores. À direita, o personagem do romance gráfico "V de Vendetta", de Alan Moore, em um fragmento do longa-metragem - Fonte: Revista História Viva #35 - clique para ampliar)


A máscara de Arlequim (um dos adornos tradicionais da festa carnavalesca da cidade de Veneza, na Itália) e a máscara do personagem de codinome "V" (do romance gráfico "V de Vendetta" - "V de Vingança", de   Alan Moore) possuem aspectos convergentes. Apesar da obra de Moore conceber "V" dentro de um universo ficcional com forte influência na Conspiração da Pólvora (o longa dirigido por McTeigue traz, inclusive, a rima tradicional em alusão a Contra-reforma: "Remember, remember, the 5th of November" - "Lembrai, lembrai, o cinco de novembro"), também é possível estabelecermos algum paralelo entre "V" e a tropa Hellequin, na medida em que as duas narrativas têm a liberdade como principal temática. Temos em "V" um misterioso anarquista com intenções de destruir o Estado através de ações diretas. Já o ideal libertário de Hellequin, segundo o medievalista Jean-Claude Schmitt, em seu estudo "Les revenants, les vivants et les morts dans la société médievale" ("Os que retornam, os vivos e os mortos na sociedade medieval") estaria presente em sua etimologia: "não resta dúvida de que o nome Hellequin (ou Herlequin ou Helething), que aparece primeiro na Normandia e depois na Inglaterra, seja de origem germânica e faça referência ao exército (heer) e à assembléia dos homens livres (thing)."


(Foliões durante o Carnaval vestindo formas primitivas das máscaras larva, chapéus e véus, de Giacomo Franco, 1610 - clique para ampliar - Fonte: Museu Britânico)


Brasey ainda estabelece uma interessante relação entre o Carnaval e a cavalgada das almas danadas narrada pelo jovem padre: "Walchelin a situa na noite de 1º de Janeiro. Mas o fenômeno sobrenatural evoca também os rituais folclóricos medievais ligados ao carnaval, nos quais as pessoas queimam simbolicamente os temores do inverno, enquanto se entregam a excessos, desafiando as regras sociais e religiosas antes de iniciar o austero período de Quaresma." Dessa forma, talvez Walchelin tivesse testemunhado o ritual carnavalesco medieval, uma vez que o uso de máscaras durante essa data festiva data de aproximadamente 30.000 anos a.C. As máscaras eram ornamentadas para ser usadas em celebrações, cultos e rituais de povos primitivos. Durante a Antiguidade, por exemplo, os egípcios acreditavam que a colocação de uma máscara na face dos mortos ajudava na passagem para a vida eterna. Um tratado datado de 22 de Fevereiro de 1339, proibia os mascarados de vaguearem pela noite nas ruas da cidade. Seu uso, contudo, era permitido durante todo o Carnaval, exceto nas festas religiosas. Durante todas as manifestações importantes, como as festas republicanas, era consentido o uso dos trajes venezianos, que compunham o uso das máscaras.


(Máscaras e fantasias tradicionais do Carnaval de Veneza, Itália - Fonte: Internet)


Stuart Clark, doutor em História pela Universidade de Cambridge, em seu livro "Pensando com demônios - A ideia de bruxaria no princípio da Europa Moderna" (Edusp, 2006), conta que tanto o escritor Jean Savaron quanto Charles Noirot tentaram vincular a história e a etimologia do verbete "máscara" (significativo da diversão popular) com as da bruxaria. "Savaron acreditava que as palavras 'mommerie' e 'Mommon' tinham a mesma derivação, e que a mascarada era, portanto, inseparável da heresia: 'se o Diabo não se mascarar e se transformar no Anjo da Luz, se os falsos Profetas, Idólatras, hereges, hipócritas, feiticeiros, e seus outros seguidores não se fantasiassem e mascarassem com uma veste de inocência, não atrairiam tantas pessoas.' Savaron citou São Crisóstomo no sentido de que os que usavam máscaras estavam promulgando o sabá (la feste de Satan), e alegou ainda que a palavra 'máscara' era o mesmo que a palavra 'bruxa' nas línguas francesa, lombarda, toscana e inglesa. Noirot argumentou, no mesmo sentido, que a palavra latina para máscara (larva) sugeria a palavra latina para bruxa (lamia) e, portanto, que havia alguma conexão interna entre se fantasiar e demônios."

Como forma de oposição à Comédia Erudita, a Commedia dell'arte (uma forma de teatro popular improvisado) surgida durante o século XV na Itália procurou trabalhar as figuras míticas de Arlequim, Colombina e Pierrot, incluindo outros personagens durante as apresentações, que ocorriam sempre em praças públicas. "As companhias de Commedia dell’arte eram itinerantes e possuíam uma estrutura de esquema familiar. Seguiam apenas um roteiro, que se denominava 'canovaccio', mas possuindo total liberdade de criação; os personagens eram fixos, sendo que muitos atores viviam exclusivamente esses papéis até a sua morte." (2)


(Personagens tradicionais do teatro popular "Commedia dell'arte" -
1. Arlequim, 1671; 2. Brighella, 1570; 3. Colombina, 1683; 4. Dottore, 1653; 
5. Pagliaccio, 1600; 6. Pantalone, 1550 - Fonte: Wikipedia)


Já no Brasil, a introdução da festa do Carnaval ocorreu em meados do século XVI, por volta de 1641, trazida pelos portugueses durante a colonização brasileira. O Entrudo, como era conhecida a prática de brincadeiras e folguedos, era realizado inicialmente na cidade do Rio de Janeiro. Desde o início, a comemoração contava com a participação de famílias brancas, como também de escravos. Luiz Felipe Ferreira (professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e coordenador do Centro de Referência do Carnaval e líder do grupo de pesquisa Laboratório da Arte Carnavalesca) em seu livro "O livro de ouro do carnaval brasileiro" (Ediouro, 2004) esclarece que existiam, no Rio de Janeiro do início do século XIX, duas grandes categorias de Entrudo: O Entrudo Familiar e o Entrudo Popular. O Entrudo Familiar era realizado dentro das casas e, por isso mesmo, era mais "delicado". Geralmente, jogavam-se limões de cheiro em quem festejava (pequenas bolas de cera recheadas de águas perfumadas característica do carnaval da Rio de Janeiro). Já o Entrudo Popular, realizado nas ruas, era mais violento e grosseiro. Eram lançados quaisquer tipos de pós ou líquidos nos festejantes (inclusive urina e fezes). 


("Scène de Carnaval", comemoração do Entrudo Popular nas ruas brasileiras,
de Jean-Baptiste Debret, 1834 - clique para ampliar - Fonte: Internet)


Na tentativa de conter a violência no Entrudo Popular, por volta de 1834 foi incentivado o uso de máscaras durante a comemoração. De procedência francesa e confeccionadas em cera muito fina ou em papelão, as máscaras simulavam caras de animais e caretas. As fantasias apareceram logo após o surgimento das máscaras, dando mais vida, charme e colorido ao carnaval, tanto nos salões quanto nas ruas. Ao final do século XVIII, o Entrudo era praticado por todo o país, consistindo em brincadeiras e folguedos que variavam conforme os locais e os grupos sociais envolvidos. 

Por influência lusitana, uma diversão carnavalesca conhecida como Zé Pereira parece ter influenciado no surgimento da brincadeira no carnaval carioca, que teria se tornado tradicional no Brasil por volta do ano de 1846. "Há uma errônea, mas infelizmente consagrada versão, que atribui a 'invenção' do Zé-Pereira a um português de nome José Nogueira de Azevedo Paredes, comerciante estabelecido no Rio de Janeiro em meados do século XIX. Divulgada na maioria dos livros sobre carnaval, essa versão acabou ocultando toda uma série de influências que contribuíram para o surgimento dessa curiosa categoria carnavalesca. As raras referências sobre a tema na literatura carnavalesca são bastante desencontradas. Estas apontam o 'surgimento' do Zé Pereira em 1846 (Moraes, 1987), em 1852 (Edmundo, 1987) ou em 1846, 1848 e 1850 (Araújo, 2000)." (3)


(Zé Pereira no Carnaval de Iguape, sul do estado de São Paulo, 2009 - Fonte: Internet)


O pesquisador Nelson da Nóbrega Fernandes, em seu estudo "O Carnaval e a modernização do Rio de Janeiro" (Revista Geo-paisagem, 2003), apoia-se na teoria de que a introdução do Zé Pereira no Brasil teria ocorrido  quando "um português, sapateiro com oficina na rua São José, emigrado da cidade do Porto, numa segunda feira de carnaval, possivelmente ao se recordar com patrícios das peripécias cometidas em um antigo folguedo da terra, resolveu alugar alguns bombos e junto com eles sair à rua zabumbando-os. (...) Como se viu nos anos seguintes e por toda a segunda metade do século XIX, se formaram muitos Zé Pereiras pela cidade. Quanto ao seu nome, existem aqueles que lembram que em alguns lugares de Portugal o nome Zé Pereira era dado ao bombo, enquanto outros atribuem ao estado etílico dos companheiros de José Nogueira naquela segunda feira de carnaval, já que no auge da confusão seus amigos lhe davam vivas trocando seu nome por Zé Pereira. Na tentativa de situar o imediato sucesso do Zé Pereira e a favor da evidência de que tenha sido uma importação de um folguedo português, deve-se assinalar que a forte presença de imigrantes desta nacionalidade no Rio de Janeiro naturalmente impulsionou o início de sua trajetória. De qualquer modo, como escreveu Eneida (op. cit.: 47), 'natural de Portugal ou não, o Zé Pereira foi traduzido em brasileiro e tomou conta da cidade; virou cidadão carioca'. Em 1896, já vivendo um certo declínio, chegou a ser representado por uma companhia teatral como uma paródia da peça 'Les Pompiers de Nanterre', na qual o comediógrafo Francisco Correia Vasques, cantava: '“E viva o Zé Pereira, pois a ninguém faz mal...'" (4)

Ainda o Zé Pereira tenha sido indexado na cultura brasileira nos anos 1800, após a Independência do Brasil, em 1822, a elite carioca já decidia se afastar do passado lusitano, aproximando-se das novas potências capitalistas. A cidade e a cultura começavam a ser importados de Paris, sendo estabelecidos como os parâmetros para ditar a moda e os modos no Brasil. A marcha "Ó Abre Alas", composta pela compositora e pianista Chiquinha Gonzaga para o cordão Rosa de Ouro, do tradicional bairro do Andaraí (RJ) em 1889, tornou-se a primeira canção de Carnaval. Em 1939, Jaime Brito teria gravado a marcha de Chiquinha Gonzaga na gravadora Odeon, visando a divulgação durante o carnaval de 1940. (Clique aqui para ouvir a versão original).


(Entrudo na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, de Angelo Agostini, 1884 -
Fonte: Acervo particular de Gilberto Maringoni Oliveira)


O vídeo abaixo data de 1966 e traz Chico Buarque, Nara Leão e MPB-4 em um dos festivais musicais realizados pela TV Record, que consagraram a emissora durante os anos 1960/70. Na letra "Noite dos mascarados", Chico Buarque nos revela um cenário romântico das antigas comemorações do Carnaval europeu, em um clima de mistério propiciado pelo tradicional uso de máscaras. No trecho "- Eu sou tão menina... / - Meu tempo passou... / - Eu sou Colombina! / - Eu sou Pierrô!", Chico Buarque faz uso dos personagens Pierrot e Colombina (da Commedia dell'arte do Carnaval italiano), para retratar as personas   (personalidade) dos dois indivíduos que dialogam durante a música.




Noite dos mascarados
(Composição: Chico Buarque)

"- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.

- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!"


Corso carnavalesco, ou simplesmente Corso, é o nome que os passeios das sociedades carnavalescas do século XIX adquiriram no início do século XX, no Rio de Janeiro, após uma tentativa de se reproduzir no Brasil as "Batalhas de Flores" (ou "Batalhas de Confete"), que foram inspiradas nas "Batailles des Fleurs" do carnaval de Nice, na França. (Assista ao vídeo da "Batailles des Fleurs" no Carnaval de Nice, em 2010). A brincadeira do Corso consistia no desfile de carruagens enfeitadas (e, posteriormente, de automóveis sem capota) repletos de foliões que percorriam o eixo Avenida Central - Avenida Beira-Mar. Ao se cruzarem, os grupos fantasiados que ocupavam os veículos lançavam uns nos outros, confetes, serpentinas e esguichos de lança-perfume. (Dessa forma, o Corso era uma brincadeira exclusiva das elites, que possuíam veículos ou que podiam pagar seu aluguel durante o Carnaval).


(Corso carnavalesco realizado em 1928, em frente a Grande Fábrica de Refrescos,
de Ítalo Ferrari, em Ourinhos, São Paulo - Fonte: Autoclassic)


Segundo esclarece a jornalista e pesquisadora do Carnaval carioca Eneida de Moraes, em seu livro "História do Carnaval Carioca", a popularização dos automóveis teria afastado os foliões das classes alta e média e, nos anos 1940, o Corso acabaria desaparecendo de vez. Luiz Felipe Ferreira, em "O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro", sugere que o surgimento de bailes exclusivos para elite (como o famoso Baile do Municipal no Rio de Janeiro, após a organização do carnaval carioca em 1932, teve papel determinante na decadência do Corso).


("Batailles des Fleurs" do carnaval de Nice, França, 2010 - Fonte: Internet)


A tradição de se queimar o "temor do inverno" também foi adicionada à nossa cultura, trazida para a América Latina pelos portugueses e espanhóis. A Malhação de Judas (Iscariotes) durante o Sábado de Aleluia adquiriu diversas formas nos países católicos que mantiveram a celebração. Iniciada com intento religioso, com o decorrer dos anos a prática diversificou as personalidades a serem queimadas, conservando a simbologia. A variação da data do Carnaval no calendário se deve justamente à ligação direta com a Páscoa (no hemisfério sul, a celebração ocorre sempre no primeiro domingo após a primeira lua cheia do outono. Determinada a data do feriado cristão, basta retroceder 46 dias no calendário - 40 dias da Quaresma mais seis dias da Semana Santa - para se chegar à data da Quarta-Feira de Cinzas).


(Malhação de Judas com o boneco do então presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek,
realizada no Sábado de Aleluia, no bairro do Brás, em São Paulo -
Março de 1959 - Fonte: Arquivo UOL)



O Cortejo de Maracatu e a história do Brasil

Ainda que a cultura brasileira tenha integrado personagens carnavalescos oriundos da matriz européia (Pierrot, Arlequim, Colombina, Clóvis - corruptela de "clown", palhaço - Rei Momo e Rainha do Carnaval), todas essas entidades folclóricas, ao adentrarem outro universo cultural, tornaram-se parte de nosso processo de bricolagem cultural. Talvez o Cortejo de Maracatu seja o mais interessante tradutor do processo de construção da mitopoética brasileira. Dentro da esfera do folclore (folk: povo; lore: conhecimento; sendo assim, o conhecimento de um povo) o Cortejo trabalha pela memória do processo colonizatório europeu no Brasil, refletindo as antigas cortes africanas que, ao serem conquistadas e vendidas como escravas trouxeram suas raízes e mantiveram seus títulos de nobreza para o Brasil. 

A partir do século XVIII surgem no estado de Pernambuco os Maracatus de Baque Virado ou Maracatus de Nação Africana. (O Maracatu é um ritmo musical com dança típico da região pernambucana, que reúne uma interessante mistura de elementos culturais afro-brasileiros, indígenas e europeus. Acompanhado por uma banda com instrumentos de percussão - tambores, caixas, taróis e ganzás - e com forte característica religiosa, os dançarinos do Cortejo representam cada qual um personagem mítico). São eles:

1. Porta-estandarte, que leva o estandarte; este contém, basicamente, o nome da agremiação, uma figura que o represente e o ano que foi criada;
2. Dama do paço, mulher que leva em uma das mãos a Calunga (boneca de madeira, ricamente vestida e que simboliza uma entidade ou rainha já morta);
3. Rei e rainha, as figuras mais importantes do cortejo, e é por sua coroação que tudo é feito;
4. Vassalo, um escravo que leva o Palio (guarda-sol que protege os reis);
5. Figuras da corte: príncipes, ministros, embaixadores, e outras figuras da corte;
6. Damas da corte, senhoras ricas que não possuem título nobiliárquicos;
7. Yabás, mais conhecidas como baianas, que são escravas;
8. Batuqueiros, que animam o cortejo, tocando vários instrumentos, como caixas de guerra, alfaias (tambores), gonguê, xequerês e maracás.


(Algumas semelhanças de construção da cena dos rituais religiosos africanos e do Cortejo de Maracatu nordestino: 1. Orixás do Candomblé - Autor: Carybé - Fonte: Internet;
2. Cortejo de Maracatu em Olinda, Pernambuco - Fonte: Internet)


Um dos integrantes do Maracatu rural do Carnaval pernambucano é o Caboclo de Lança, conhecido também como lanceiro africano. Ele teria sido o "caboclo de guiada" (o guerreiro de Ogum, no Candomblé). 


(Acima, integrante de uma tribo do sul da Etiópia, na África Oriental - Foto: Hans Silvester;
abaixo, Caboclo de Lança, um dos personagens tradicionais do Maracatu rural no
Carnaval pernambucano - Foto: Silvinha Rangel)


O fotógrafo Hans Silvester, conhecido por seu livro "Natural Fashion – Tribal Decoration from Africa" (Editora Thames & Hudson, 2008) registrou algumas tribos africanas com as quais conviveu durante seis anos. É possível compreender como a estética do personagem folclórico brasileiro Caboclo de Lança foi sendo construída ao longo dos séculos, se observarmos a forte influência do universo cultural africano durante o processo de colonização do Brasil. Foram diversos grupos étnicos que forçosamente atravessaram o Atlântico, trazendo cada qual sua crença e estrutura identitária, participando ativamente do processo de construção da mitopoética brasileira. Segundo Lévi-Strauss, "a mitopoética se origina, (...) em uma espécie de noûs poiétikos, ou de imaginação transcendental. Logo, a mitopoética consiste na elaboração de um conjunto a partir de resíduos e fragmentos de acontecimentos, testemunhas fósseis da história de um indivíduo ou de uma sociedade; é uma espécie de bricolagem intelectual; e a bricolagem é o modus operandi da mitopoética."


(Caboclo de Lança do Carnaval pernambucano - Fonte: O Nordeste)


As imagens abaixo trazem vestimentas adornadas que são utilizadas em rituais sagrados em regiões da Angola e por povos de língua Iorubá (Nigéria, Benin, Togo, Serra Leoa e República Dominicana). Se compararmos com o Caboclo de Lança (foto acima), poderemos observar alguma similaridade estética entre as peças de referência, o que ratifica nosso sincretismo cultural.


(1. Traje de Egum, ou Egun, da mitologia Iorubá. O termo "Egum" é utilizado no Candomblé e significa "alma" ou espírito de qualquer pessoa falecida iniciada ou não - Fonte: Internet; 
2. Vestimentas de Babá Egum, adornados com miçangas, búzios e espelhos costurados aos tecidos - Fonte: Catálogo do Museu Afro Brasil, Parque do Ibirapuera, São Paulo;
3. Kaviungo ou Kavungo, entidade angolana responsável pela saúde. O Kavungo é intimamente ligado à morte e sua saudação é: "Tateto Mateba Sakula Oiza - Dixibe", que significa "O Pai da Ráfia Está Chegando - Silêncio" - Fonte: Internet)


Composta por Chico Buarque e Francis Hime em 1984, a letra de "Vai passar" foi um samba-enredo  de versos libertários que abordavam, de modo alegórico, o fim da Ditadura Militar no Brasil. Entretanto, os versos de "Vai passar" também podem ser interpretados através da memória do processo colonizatório europeu. O "carnaval" cantado por Chico nos remeteria a um tempo-espaço em que a população se liberta de todas as repressões assumindo, nas máscaras, a sua verdadeira identidade.





Vai passar
(Composição: Chico Buarque e Francis Hime)

"Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais

Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval

Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear

Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral... vai passar"


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Fontes:
(1) ARAÚJO, Hiram da Costa. Carnaval: seis milênios de história, Gryphus, Rio de Janeiro, 2002.

(2) "Commedia dell'arte" (www.wikipedia.org/Commedia dell'arte)


(3) "Zé Pereira" (www.wikipedia.org/Ze_Pereira)

(4) FERNANDES, Nelson da Nóbrega. O Carnaval e a modernização do Rio de Janeiro. Revista Geo-paisagem. Ano 2, nº 4, 2003, ISSN Nº 1677-650 X)

A origem do Natal

A palavra "Natal" advém do latim (nātālis), derivada do verbo nāscor (nāsceris, nascer). "Christmas", por sua vez, provém do inglês, evoluído de Christes maesse (Christ’s mass, missa de Cristo). A tradição de celebrarmos o Natal em 25 de Dezembro e todo o simbolismo desta festividade remonta a milênios. Sua data é indefinida, porém há relatos históricos de que as comemorações antecedem de 2 a 4 mil anos o nascimento de Jesus. Durante a desintegração do Império Romano, muitos povos "bárbaros" que chegaram à Europa trouxeram consigo uma série de tradições que definiam a sua própria identidade religiosa.

Nesse mesmo período, a expansão do cristianismo foi marcada por uma série de adaptações, de modo que as divindades, festas e mitos das religiões - até então pagãs - foram incorporados ao universo cristão. (Convém lembrar que o termo bárbaro remete a uma sociedade vista como não civilizada. De origem grega - βάρβαρος bárbaro significa "não grego". Ou seja, esta era uma expressão para designar os povos "estrangeiros", ou seja, quem não era grego e cuja língua materna não era o idioma grego). Joseph Campbell, em entrevista ao jornalista norte-americano Bill Moyers publicada em "O Poder do Mito" (Editora Palas Athena, 1990) esclarece que "toda mitologia cresceu numa certa sociedade, num campo delimitado. Então, quando as mitologias se tornam muitas, entram em colisão e em relação, e se amalgamam, e assim surge uma outra mitologia, mais complexa. (...) A característica dos povos imperialistas é ver o seu deus local promovido a senhor de todo o universo. As demais divindades deixam de contar. E o meio de conseguir isso é aniquilar o deus ou deusa que estava aí antes."

Uma das origens do Natal é Zagmuk, um antigo festival na Mesopotâmia que simbolizava a passagem de um ano para outro, geralmente durava 12 dias. Segundo Morris Jastrow, um pesquisador de estudos relacionados às sociedades orientais declarou em 1896 para o Jornal Americano de Linguagem Semiótica e Literatura, que no início do mês de Nisan os babilônios celebravam o festival de Zagmuk com sacrifícios e oferendas. Passando pelas principais ruas da Babilônia eles carregavam Marduk, sua esposa e filho, entre outros deuses. 



(Marduk e seu dragão Mušḫuššu - clique para ampliar - Fonte: Wikipedia)


Devido ao solstício de inverno, a lenda dizia que o rei deveria morrer ao lado de Marduk, para ajudá-lo na batalha contra os monstros do caos (a escuridão). Entretanto, para poupar o rei, um criminoso era vestido com suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca para então ser morto e levar consigo todos os pecados do povo. Jany Canela, mestre em educação e graduada em História pela Universidade de São Paulo, comenta que "os povos antigos sempre realizaram festas de celebração em deferência aos marcos de transição da natureza, como as estações ou períodos representativos de mudanças importantes, entre eles o solstício (em dezembro) e o equinócio (em março).

Um ritual semelhante, conhecido como Sacae (versão latinizada do iraniano arcaico, Sakā), também era realizado pelos persas e babilônios. Sob os mesmos pilares da luta contra a escuridão, a versão também contava com escravos tomando lugar de seus mestres. Jany nos diz que nossa tradição de celebrar o Natal à meia-noite possivelmente remonta a estes rituais pagãos: "Por conta da relação luz/escuridão trazida pela simbologia do solstício, a teoria mais difundida sobre o Natal associa a data a esse período, em que alguns povos passavam a noite em vigília com tochas acesas para garantir que o sol nascesse e imperasse sobre a escuridão", diz a historiadora.


(Inscrição de um cavaleiro Pazyryk - povo nômade que viveu na Rússia siberiana -
durante o ritual Sacae, cerca de 300 a.C. - Fonte: The World of Ancient Art)


(Vestimenta dos guerreiros - Homens Dourados - encontrada às margens do Lago Issyk Kol, no Quirguistão, na Ásia Central. O traje era usado no ritual Sacae,
e data do século V a.C. - Fonte: The Oriental Caravan)


A Grécia antiga também incorporou os rituais estabelecidos pelos mesopotâmios ao celebrar a luta de Zeus contra o titã Cronos. O costume alcançou os romanos, que passaram a realizar a Saturnalia (em homenagem a Saturno). A festa iniciava em meados de Dezembro e decorria até o início de Janeiro. Mas outros cultos existiam também, como é o caso do deus Apolo, considerado como "Sol invicto" (Sol Invictus), ou ainda de Mitra, adorado como Deus-Sol. Este último, muito popular entre o exército romano, era celebrado nos dias 24 e 25 de Dezembro, data que, segundo a lenda, correspondia ao nascimento da divindade. Em 273, o Imperador Aureliano estabeleceu o dia do nascimento do Sol em 25 de Dezembro: Natalis Solis Invicti (do latim, "nascimento do Sol invencível"). Neste dia não havia trabalho nem aulas. Eram realizadas festas nas ruas e grandes jantares com amigos. As árvores eram ornamentadas com galhos de loureiros e iluminadas por muitas velas para espantar os maus espíritos da escuridão.


(O imperador Aureliano e sua coroa, moeda de bronze prateado,
por volta de 274 - Fonte: Wikipedia)


É somente durante o século IV, com a conversão do imperador Constantino ao catolicismo que o nascimento de Cristo começa a ser celebrado pelos cristãos (até aí a sua principal festa era a Páscoa) mas no dia 6 de Janeiro, com a Epifania. (Do verbo grego epiphaino: mostrar), a palavra epifania significa aparição, manifestação. A alteração das datas comemorativas foi realizada pelo Papa Gregório XIII (responsável pelo vigente calendário gregoriano). 



Presépio

Etimologicamente a palavra presépio provém do latim (praesepium; prae: à frente; saepes: fechado, cercado). Durante o século XVI foram introduzidos nas igrejas os primeiros presépios em escala reduzida. Seu surgimento foi motivado por representações plásticas e teatrais. A primeira, situa-se no final do século IV, surgida com Santa Helena, mãe do Imperador Constantino; da segunda, a teatral, os registros mais antigos que se tem conhecimento datam do ano de 1223, com Francisco de Assis. Ele teria reproduzido um "presépio vivo" com personagens e animais em sua igreja em Greccio, na Itália. Os personagens reais que realizaram a encenação eram habitantes da própria aldeia, tradição que disseminou-se rapidamente.


(Presépio natalino, costume católico em que se reúne pequenos personagens moldados
em massa e faz referência à mitologia cristã - Fonte: Internet)


Alguns anos depois, por volta de 1803, os habitantes de Provença começaram a reproduzir os personagens folclóricos do presépio em massa de modelar, conhecidos como santons. O livro "Le petit monde du santons de Provence" ("O pequeno mundo dos santinhos de Provença"), de Laurent  Giradou e publicado por Equinoxe em 2010 possui cerca de 130 páginas com registros da coleção de santos confeccionados por Gilbert Orsini, um dos mais conhecidos mestres artesãos).

(Curiosamente, termo bastante similar ao praesepium, Praesepe - como também é conhecido o Messier 44 - é um aglomerado estelar aberto localizado na constelação de Câncer, considerado um dos mais próximos aglomerados estelares. Por ser visível a olho nu, o M-44, também conhecido como o Aglomerado do Presépio é conhecido desde a Antiguidade).



Árvore

Na Idade Média, árvores enfeitadas faziam parte de todas as grandes festas – por exemplo, das festas da cumeeira (tradição adotada também no Brasil, durante o colonização européia). A primeira menção do uso de pinheiros na ornamentação das festas natalinas data de documentos de 1419. Nas vésperas do solstício de inverno, os povos pagãos da região dos países bálticos (nordeste europeu) cortavam pinheiros e os levavam para seus lares, enfeitando-os para que, depois da queda das folhas no inverno, os espíritos das árvores retornassem. Entre os egípcios, o cedro se associava a Osíris. Os gregos ligavam o loureiro a Apolo, o abeto a Átis, a azinheira a Zeus. Já os germânicos colocavam presente para as crianças sob o carvalho sagrado de Odin.


(Winfried, rebatizado São Bonifácio pelo papa Gregório II, venerado pela
Alemanha católica, da qual é patrono - Fonte: Heróis Medievais)


A tradição de adornar a árvore durante o solstício de inverno foi mantida ao longos dos séculos na Europa. A árvore de Natal tal qual a conhecemos atualmente teve origem na Alemanha, por volta do século XVI. Na tentativa de acabar com a crença dos povos pagãos, no início do século XVIII, o monge beneditino São Bonifácio, cortou um pinheiro sagrado que os locais adoravam no alto de um monte. Sem sucesso na erradicação da crença, São Bonifácio decidiu então associar o formato triangular do pinheiro à Santíssima Trindade e suas folhas resistentes e perenes à eternidade de Jesus. 


("Adão e Eva", óleo sobre tela de Lucas Cranach, 1526 -
clique para ampliar - Fonte: Wikipedia)


A etnóloga Christel Köhle-Hetzinger, da Universidade de Jena, na Alemanha, conhece uma série de histórias que tentam explicar a origem da tradição medieval: "Sabe-se também que árvores verdes eram postas nas igrejas na época de Natal. Era, sem dúvida, uma alusão à árvore do paraíso, que desempenha um papel próprio em toda a liturgia cristã. Ou seja, uma árvore cristã da vida. Como na história de Adão e Eva." O teólogo Fernando Altermeyer, da PUC-SP, ratifica: "No antigo calendário cristão, o dia 24 de dezembro era dedicado a Adão e Eva, cuja história costumava ser reencenada nas igrejas. O paraíso era representado plasticamente por uma árvore carregada de frutos, colocada no meio da cena teatral."



Guirlanda

Na simbologia das formas, o círculo é associado ao ponto e ambos podem ser considerados como sinais supremos de perfeição, união e plenitude, representando o céu e a ordem cósmica na astrologia. Símbolo do movimento, como a roda e as habitações dos povos nômades (que dispunham os seus acampamentos também em forma de circulo protetor), o círculo também representa os movimentos cíclicos dos planetas nos horóscopos e no Zodíaco, à volta do Sol.



(O elemento circular presente na Roda da Fortuna. A imagem acima é parte do Codex Buranus, uma ópera do século XX, de Carl Orff, que utilizava a métrica dos hinos católicos e melodias do canto Gregoriano - Fonte: Hecatus)



(Tradicional guirlanda de Natal - Fonte: Internet)


Consideradas simbolicamente como "adornos de chamamento", as guirlandas eram muito utilizadas nos solstícios de inverno como convite para que os Deuses viessem a morar em nossas casas durante o inverno, fazendo companhia e nos abençoando o lugar. Seu permaneceu durante a Roma Antiga: oferecer um ramo de planta significava um voto à saúde, proporcionando o costume de enrolar os ramos em uma coroa. 


 (Arbustos utilizados para a confecção das guirlandas natalinas.
Da esquerda para a direita: azevinho, visco branco e hera - Fonte: Internet)


(A Deusa Frigga e suas quatro escravas: 
Fulla, Gna, Hiln e Eir - Fonte: Internet)


O mais conhecido dos três arbustos é o azevinho; ele é composto de folhas verdes e frutos em tom vermelho vivo, que simbolicamente representam o aspecto masculino das divindades celtas e dizem ter o poder de repelir o mal. Já o visco branco têm folhas mais arredondadas e de textura macia. Os frutos brancos estão ligados ao aspecto feminino das divindades celtas, representando a imortalidade e fertilidade. Todos estes arbustos são ditos protetores, pois acreditavam que traziam boa sorte e proteção, e eram colocados nas portas para afastar os maus espíritos e o azar. (As bolas nas árvores de natal também simbolizavam o azevinho e o visco, já que a bola vermelha representa o fruto do azevinho e a bola branca o fruto do visco). Na mitologia escandinava, o azevinho representava Thor e Freya enquanto o visco representava a deusa  do amor, Frigga (imagem acima). É daí que advém o mito de que beijar a pessoa que se ama debaixo de uma guirlanda natalina trará um bom futuro. 



Sinos e estrela

Sino, do latim signum (sinal), tem sua origem na China, por volta de 3000 a.C. Por sua criação anteceder a religião católica o sino, conhecido até então como um objeto pagão, foi adotado por monges missionários durante o século VI d.C., que o introduziram na Europa Central. Sua finalidade era a anunciação do Evangelho e o chamado do povo para a participação em Assembléias. Segundo Voltaire Schilling, ex-diretor do Memorial do Rio Grande do Sul e que leciona História há mais de 30 anos, conta que "o dia-a-dia de toda a cristandade era regulado pelo bimbalho forte que saindo do alto da torre da igreja inundava tudo ao redor, invadindo os silêncios dos campos vizinhos e empinando até as orelhas dos bichos. O sino foi durante muito tempo o grito do medievo. Era o que fazia soar os alarmes, os socorros, lamentava as pestes e acompanhava pesaroso os enterros. Registrava também as alegrias da comunidade, o dia do padroeiro, o nascimento do príncipe, a boda da princesa ou uma festa do senhorio." (1)

A partir do ano de 1600 a fabricação de sinos na Europa era considerada uma arte. Foi então introduzida a técnica de produzir certos timbres, notas e melodias. Foi a partir dessa data que, pela primeira vez, tornou-se possível fazer soar vários sinos simultaneamente, sem que fosse sentido uma dissonância musical. "É importante dizer que o som de um bom sino é captado a quilômetros de distância de sua emissão. Por isso as guerras eram o inimigo número um deles. Com o desenvolvimento dos canhões no século XV, os campanários das igrejas eram as primeiras instalações a caírem nas mãos dos invasores e eram consideradas presas de guerra. Não só para evitar a transmissão de sinais, mas também para que seus sinos fossem transformados em canhões." (2)


(Gaspar, Baltasar e Melchior em mosaico datado do século VI,
Basílica de Santo Apolinário Novo, em Ravenna, Itália - clique para ampliar)


Já a simbologia da estrela na celebração natalina advém da mitologia de que teria servido de "guia celeste" aos Reis Magos (Gaspar, Baltasar e Mechior), apontando-lhes para o local do nascimento de Jesus. No ano 5 a.C. documentos astronômicos indicam que teria ocorrido uma grande explosão estrelar, resultando numa grande luminosidade que permaneceu no céu por inúmeros dias. Um fato que pode ter originado a imagem da estrela de Belém, já que Jesus nasceu entre os anos 8 e 4 antes da chamada era cristã. Em 1606, o astrônomo e matemático alemão Johannes Kleper afirmou que a estrela era uma rara conjunção da Terra com os planetas Júpiter e Saturno, transitando por Sol. Esta conjugação se apresenta aos olhos do observador terrestre como uma estrela muito brilhante. 

É conhecido que os fenômenos naturais como por exemplo a chuva, aurora boreal (nos países nórdicos) e relâmpagos eram tidos como sinais divinos pelos povos pagãos. A respeito da simbologia das manifestações da natureza, Jacques-Noël Pérès, professor de patrística e de história antiga da Igreja da Faculdade de Teologia Protestante de Paris, em seu artigo publicado na revista História Viva #35 (Dezembro, 2011), comenta que os cometas eram tidos como mau presságio, "sinal antecipador de catástrofes naturais e epidemias devastadoras, como a fome ou a peste, e quando não pura e simplesmente o fim do mundo. Eles eram acompanhados por reações coletivas de pânico e temor, mas também por conversões em massa."



Papai Noel

Em entrevista a um programa brasileiro a atriz e modelo Elke Maravilha contou brevemente a origem mitológica do Papai Noel (vídeo abaixo).



Há mais de 15 mil anos antes de Cristo, o inverno mais frio e escuro dos vikings se dava no dia 24 de Dezembro, o dia onde o sol está mais longe da Terra. Por conta das baixas temperaturas, os povos da região tinham seis meses pra armazenar um estoque relevante de comida. A localização das casas, muito bem planejadas, encontravam-se próximas as fontes de água. Eram componentes da culinária escandinava: castanhas, nozes e peixes de carne dura. O alimento podia ser desidratado (como o bacalhau), defumado, ou ainda, azedado (como as conservas); tudo sempre bem salgado para melhor conservar, pois não havia modo de refrigerar o alimento. (Outro ponto essencial era o estoque de lenha, uma vez que o fogo servia tanto para iluminar e aquecer, quanto para o preparo de alimentos).

A temperatura chegava até -50ºC. "Era o tempo em que as trevas começavam a vencer a luz, a vida perder para a morte, a sabedoria perder para a ignorância e a verdade perder para a mentira", diz Elke Maravilha durante a entrevista. Os xamans das aldeias vikings se reuniam sob o pinheiro que, apesar das baixas temperaturas, continuava verde e vivo. Acendendo velas sobre as árvores eram oferecidos pedidos em seus rituais, para que a vida vencesse a morte, que a luz vencesse as trevas e a sabedoria vencesse a ignorância. "Como o caçador é anterior ao guerreiro, o instinto da luta é uma consequência da caça. Todos os velhos conquistadores foram caçadores excelentes. (...) Dou ao caçador o ímpeto primário de matar, o exercício do ataque, o sabor primeiro da vitória compensadora. O guerreiro, matador de homens, nasceu do caçador, vencedor de animais." (3)

O xaman da aldeia escolhia um rapaz que estava em rito da passagem de adolescente para a idade adulta e mandava caçar um urso branco, símbolo da força viking. Este levava seu trenó e suas renas para a caça ao urso e, se retornava, como mandava o ritual, trajava a pele do urso (com o sangue para fora e os pêlos brancos na parte interior, aquecendo-lhe o corpo).


(O bispo São Nicolau - padroeiro de países como Rússia, Grécia e Noruega -
do qual advém a figura mitológica do Papai Noel - Fonte: Wikipedia)


A mitologia acerca da figura do Papai Noel nasceu por volta de 280 d.C., após a conversão dos povos pagãos à religião católica. Nascido em Patara, na Ásia Menor, o bispo Nicolau - filho de pais ricos com profunda vida de oração - foi santificado após várias lendas e milagres - e sua fama de generosidade com as crianças - terem sido a ele atribuídos. A uma delas lhe deve o mito de distribuidor de presentes. No século XI, o roubo de seus ossos promoveram sua fama por toda a Europa e por volta do século XIII a comemoração do seu dia passou para o dia 6 de Dezembro. Sua figura foi então relacionada com as crianças, para as quais ele deixava presentes, vestido de bispo e montado em um burro.


(Caracterizações do personagem Papai Noel em períodos distintos - clique para ampliar:
1. Christ as Sol Invictus - Cristo como Sol Invicto, mosaico datado do século III, na Basílica de São Pedro, Vaticano, que representa Cristo como o Deus Sol, ou Sol Invicto;
2. Ilustração de Thomas Nast, que ajudou a modernizar a imagem do Papai Noel, 1881;
3. Ilustração publicitária de Haddon Sundblom, que consolidou a figura folclórica do Papai Noel; 4. Sinterklaas, ou São Nicolau, padroeiro da Noruega, Rússia e Grécia)


Ao longo do século XIX, a imagem de Papai Noel (Santa Claus) foi representado de diferentes formas, com diferentes tamanhos, vestimentas e expressões. Pouco a pouco foi adquirindo estatura, barriga, mandíbula, barba e bigode branco, aparece no Pólo Norte, rodeado de complementos como o abeto e o visco. Com a chegada da cromolitografia (litografia em cores), em 1837, suas roupas foram coloridas com um vermelho brilhante. Em 1931, a Coca-Cola encomenda ao artista Haddon Sundblom a remodelação da figura do Papai Noel, que o torna ainda mais próximo e verossímil. Sundblom se inspira em seu amigo, Lou Prentice, um vendedor aposentado. A campanha de Natal constitui um grande sucesso e a partir de então, a imagem do Papai Noel se consolidou tal qual a conhecemos atualmente.


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Fontes:
(1) "Sino" (www.educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos)

(2) "Sino" (www.novaimprensa.com.br)

(3) CASCUDO, Luís da Câmara. Civilização e Cultura, Editora Global, São Paulo, 2004.

Série (En)cantando o Brasil (Florentina de Jesus - Tiririca)


"Florentina, Florentina / Florentina de Jesus / Não sei se tu me amas / Pra que tu me seduz...". Os conhecidos versos de "Florentina", de Tiririca, talvez tenham alguma referência histórica, que remonta ao período da Idade Média. É provável que a reputação das mulheres florentinas tenha se mantido viva no inconsciente nordestino através da Literatura de Cordel, trazido para o Brasil durante o período da colonização, tornando-se tema da jocosa música do humorista cearense.

(Clique abaixo para ouvir a música "Florentina", do humorista cearense Tiririca).





Durante o Medievo, a Itália e seus tecidos se destacavam dos demais países da Europa. O comércio com o Oriente trazia todo tipo de novidades, texturas e cores para os países europeus. "Ligada por estrada à França, onde tinha importantes mercados, Florença não dispunha de porto de mar e sua prosperidade de deveu mais às suas indústrias que ao comércio. Os seus mercadores e fabricantes de tecidos, bem como outros membros de corporações, tomaram o controle do governo a partir de 1282 e preservaram a sua constituição 'republicana' mesmo depois de o verdadeiro poder ter passado para as mãos de uma oligarquia, e posteriormente, para as da família Médici (1434)." (1)


(Trajes usados pela sociedade italiana durante o século XI - clique para ampliar.
Fonte: "The Costumes of All Nations", de Albert Kretschmer e
Carl Rohrbach. Sotheran, 1882 - Fonte: Period Paper)


Com a invenção do tear horizontal e da roca de fiar em 1290, houve um aumento da qualidade dos tecidos que eram confeccionados aumentando a produção cerca de dez vezes. Uma das mais interessantes referências visuais que registra o progresso técnico da Idade Média é o Codex Manesse, um manuscrito escrito e pintado entre 1305 e 1340 em Zurique por Johannes Hadlaub. Reunindo inúmeras canções de amor medievais, o Codex Manesse foi dedicado ao rei Venceslau II. (Clique aqui e leia mais sobre o Codex Manesse).


(Codex Manesse, manuscrito alemão da Idade Média - clique para ampliar - 


Desde o início do século XIV havia uma grande preocupação em dar forma à porção central do corpo. (Neste período, homens e mulheres usavam faixas apertadas em volta do corpo como forma de delineá-lo). As roupas medievais eram compostas por várias peças sobrepostas e de diferentes materiais, de acordo com a finalidade que possuíam. Como roupa interior, as mulheres usavam faixas de linho, não tingidas, sobre os seios. (Uma peça comum do período medieval é o espartilho, também conhecido como corset. Representada tipicamente como parte do traje da taberneira medieval, o seu uso foi relatado já no século XII, como roupa interior feminina. O seu uso externo está associado à cortesã do século XV e, a partir do século XVI, pelas senhoras da nobreza). R. W. Lewis em "Dante - Breve Biografia" (Objetiva, 2002), cita o cardeal Latino Malabranca, o erudito e talentoso sobrinho do papa Nicolau III, autor do hino Dies Iræ ("Dia da Ira") como um "severo moralista que criticou as mulheres florentinas por suas roupas extravagantes." 


(Tapeçaria de Bayeux - clique para ampliar. Confeccionada em bordado no século XII, a obra foi feita na Inglaterra para celebrar os eventos da Batalha de Hastings. Conta-se que o tapete tenha sido bordado pela Rainha Matilde de Flandres e suas aias)


Durante a primeira metade do século IX (mais precisamente dentre o ano 1000 a 1300 d.C.), os bordados europeus eram de grande relevância na ornamentação das vestimentas. (A importância do bordado como uma técnica decorativa foi assegurada pela raridade e alto custo das sedas). A grande maioria das vestimentas européias eram confeccionadas em lã e linho e tornaram-se símbolos de grande poder sendo ornamentadas com pedrarias, peles e botões. A é de origem mesopotâmica. A região foi pioneira na domesticação de carneiros e ovelhas, essenciais para as tramas das lãs. Já o linho é um dos tecidos considerados mais nobres na história da moda, sendo difundido pela Europa pelos comerciantes fenícios, que o levaram para a Irlanda, a Inglaterra e Bretanha. Entretanto foram os romanos que iniciaram o cultivo no norte europeu.


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Fonte:
(1) MATTHEW, Donald. As grandes civilizações do passado - Europa Medieval. Folio, Barcelona, 2006.

Literatura de Cordel

A Literatura de Cordel nasceu no século XVI, durante o período Renascentista, com a popularização dos relatos orais recitados por jograis e menestréis ambulantes. Sua origem remonta ao Trovadorismo galego-português, que teve grande relevância como construção identitária da nação portuguesa. (A origem do termo cordel se deve a forma como tradicionalmente os folhetos de qualidade rústica eram expostos à venda em Portugal, geralmente pendurados em cordas e barbantes).


(Literaturas de Cordel - Fonte: Internet)


As cantigas do Trovadorismo (a primeira escola galego-portuguesa) podem ser divididas em: Cancioneiro da Ajuda (com 310 cantigas, quase todas de amor. Esse é o mais velho cancioneiro, reunido no reinado do quinto rei de Portugal, Dom Afonso III), Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (com 1.205 cantigas de variados autores, mas todas com as quatro modalidades: amor, amigo, escárnio e maldizer, incluindo 138 cantigas de Dom Diniz, considerado o Rei-Trovador) e Cancioneiro da Vaticana (Com 1.647 cantigas de todas as modalidades).


(Arte figurativa de Jograis da Idade Média - Fonte: Internet)


De grande relevância social e artística, a hierarquia dos poetas-músicos medievais constituía-se respectivamente de Trovadores, Jograis, Segréis e Menestréis:

Trovadores: Poetas nobres, criadores cultos de cantigas e textos;
- Jogral: Poetas humildes (também eram compositores de cantigas);
- Segrel: Estabelecia uma classe intermediária entre o trovador e o jogral. O segrel existiu somente na escola galego-portuguesa. Eram da pequena nobreza, que reproduzia suas próprias composições;
- Menestrel: Termo dado aos músicos da Corte a partir do século XIV, quando o nome jogral passou a ser desagradavelmente usado para chamar os bobos.

Sobre a profissão jogralesca António José Saraiva, em "História da Cultura em Portugal" nos diz que "(...) como o saltimbanco de hoje, ela animava as folgas da plebe, mas também era elemento, e até ornamento indispensável, das festas dos palácios. Num caso ou noutro, porém, a jograria era uma profissão própria de vilões e o jogral, quer nas romarias populares, quer nos palácios era, pela sua origem, um homem do povo. A transformação dos costumes trazida pelo desenvolvimento comercial da Europa desde o século XII, a prosperidade pacífica em que entravam certas regiões, fizeram aparecer ao lado do jogral o trovador, cultor das musas, que não se envergonhava de viajar para levar os seus versos através dos castelos. (...) O jogral, vilão, recebia remuneração pelo seu trabalho, do qual vivia; o trovador, nobre ou príncipe, exercitava a poesia e a música por puro desporto ou desenfado. Havia outras diferenças: o trovador compunha as composições que o jogral se limitaria a executar. Mas esta distinção não é essencial, porque vários jograis são também autores, e muitos trovadores são também executantes. No essencial, o jogral é um profissional que não tem outras fontes de rendimento senão o seu trabalho de artista; portanto um homem que não pertence à classe nobre." (1)

Desde o início da impressão dos livretos em Cordel até os dias atuais a técnica utilizada é a xilogravura, que consiste em gravuras rústicas feitas a partir de entalhes em chapas de madeira. (Etimologicamente, a palavra xilogravura provém do grego. Xilo, do grego xilon: madeira; grafia, do grego grafó: escrever, gravar. A xilogravura é, portanto, um processo de impressão onde se utiliza um carimbo de madeira). Segundo o site Wikipedia, a xilogravura trata-se de "uma técnica em que se entalha na madeira, com ajuda de instrumento cortante, a figura ou forma (matriz) que se pretende imprimir. Em seguida usa-se um rolo de borracha embebecida em tinta, tocando só as partes elevadas do entalhe. O final do processo é a impressão em alto relevo em papel ou pano especial, que fica impregnado com a tinta, revelando a figura. Entre as suas variações do suporte pode-se gravar em linóleo (linoleogravura) ou qualquer outra superfície plana. Além de variações dentro da técnica, como a xilogravura de topo." (2)

Técnica bastante simples e barata (que permitia que os gravadores desenvolvessem suas próprias ferramentas de corte e entalhes na matriz para obterem resultados criativos nos desenhos), a xilogravura mais antiga que se tem conhecimento foi aplicada para ilustrar a oração budista Sutra do Diamante, editada por Wang Chieh, na China, por volta do ano 868. A chegada à Europa das gravuras japonesas a cores revolucionaram a técnica da xilogravura exercendo, por sua vez, grande influência sobre as artes do século XIX.


("Sutra do Diamante" - clique para ampliar -
Oração budista impressa em xilogravura na China, em 868)


A xilogravuras foram introduzidas na Europa por volta de 1418, vindo da China através da Espanha islâmica. Naquele período a xilo era utilizada principalmente para a impressão de cartas de baralho, ilustrações para livros (iluminuras) e também para confeccionar mementos religiosos. A Itália, Alemanha, França e Holanda foram os centros de excelência em xilogravura, onde a técnica influenciou fortemente a produção artística. Artistas como Albrecht Dürer (Apocalipse, 1499), Mestre das CartasLucas CranachAlbrecht AltdorferThomas Bewick e Hans Burgkmair foram alguns dos expoentes europeus que utilizaram a xilogravura como técnica de impressão de suas obras. 


("Adão e Eva no Paraíso", xilogravura de Lucas Cranach, 1509 -


Já a partir do século XVI, a xilogravura passou a competir com a impressão de gravura em metal, que permitia obter traços mais delicados através de linhas menos espessas. Após a Revolução Industrial ocorrida no século XIX a impressão em xilogravura perdeu sua função utilitária, revelando-se desvantajosa em relação a impressão em clichê de metal - principalmente pelos avanços tecnológicos na área da fotografia, que permitiam uma maior longevidade do metal em relação à madeira quando do uso de substâncias químicas em contato com a matriz. Condenando ao desemprego os xilógrafos de reprodução, a técnica de xilogravura ressurgiu no campo artístico sendo utilizada como uma nova expressão plástica por artistas como Edvard Munch, Paul Gauguin, Matisse e o grupo alemão expressionista Die Brücke. Os gravuristas brasileiros Lasar Segall e Osvaldo Goeldi foram os pilares iniciais que desenvolveram a xilogravura artística. 

A chegada da Literatura de Cordel ao Brasil se deu com a colonização portuguesa. Por volta de 1750, apareceram os primeiros poetas populares brasileiros que narravam sagas em versos - analfabetos em sua grande maioria (as histórias eram decoradas e recitadas nas feiras ou nas praças, às vezes, acompanhadas por música de violas). Segundo Marilena Chauí, "fala-­se de cultura popular enquanto cultura dominada, invadida, aniquilada pela cultura de massa e pela indústria cultural, envolvida pelos valores dominantes, pauperizada intelectualmente pelas restrições impostas pela elite, manipulada pela folclorização nacionalista, demagógica e explorada, em suma, impotente face à dominação e arrastada pela potência destrutiva da alienação." Entretanto é importante lembrar que na Literatura Cordelista há uma grande quantidade de personagens estradeiros, trapaceiros e anti­-heróis, que sobrevivem através de artimanhas como alternativa para escapar de um sistema opressor.

"Enfim, foram esses cantadores do improviso, itinerantes, os precursores da literatura de cordel escrita. E verdadeiros repórteres, pois eram eles quem divulgavam as notícias nos lugares mais longínquos, especialmente, os acontecimentos históricos do Brasil, narrados em verso. O fenômeno só despertou o interesse dos estudiosos letrados em fins do século 19, começo do século 20. O poeta paraibano Leandro Gomes de Barros é considerado por esses pesquisadores, o primeiro a imprimir e vender seus versos, por volta de 1890." (3)


("Os Dez réis do Governo", folheto raro do poeta Leandro Gomes de Barros publicado em 1907.
O texto aborda a cobrança abusiva dos impostos durante a República Velha - Fonte: Internet)


Na rica produção Cordelista nordestina há uma grande variedade de temas, que refletem a vivência popular, desde problemas atuais até a conservação de histórias da atmosfera ibérica). "Ocorre ainda a presença da jocosidade, em textos abertamente humorísticos ou em textos irônicos, ou ainda na exploração de boatos (que o autor popular logo capta e utiliza para sua criatividade). Alguns títulos ajudam a compreensão desse grande número de folhetos, cá e lá: Piadas de Bocage, de António Teodoro dos Santos; O grande debate de Camões com um sábio, de Arlindo Pinto de Souza; As perguntas do rei e as respostas de Camões, de Severino Gonçalves de Oliveira; Disparates em verso, de Armando Barata e Artur do Intendente; A padeira de Aljubarrota, de J. A. d’Oliveira Mascarenhas (estes dois de Portugal). Mas a lista seria interminável: O homem que casou com a jumenta, de Olegário Fernandes da Silva; A mulher que engoliu um par de tamancos com ciúme do marido, de José Costa Leite; História do macaco que quis se virar gente, de Minelvino Francisco Silva; O rapaz que casou com uma porca no estado de Alagoas, de José Soares; O rapaz que virou burro em Minas Gerais, de Rodolfo Coelho Cavalcante; História da razão dos cachorros cherarem o feofó uns dos outros, de Abraão Batista; e também História de um galego que trocou a mulher por uma vaca (sem assinatura, editado em Lisboa)." (4)


("Uma noite de Lua de Mel" e "O Periquito de Chiquinha e a Rolinha de Jacinto", 
obras Cordelistas do poeta José Costa Leite - xilogravura do autor - Fonte: Internet)


Um bom exemplo do sincretismo cultural presente na essência da Literatura de Cordel brasileira é a música "Pavão Mysteriozo", do cantor e compositor cearense Ednardo, que tem como referência a obra Cordelista "O Romance do Pavão Misterioso", escrita ao final dos anos 1920 por José Camelo de Melo Rezende. Esta obra, por sua vez, teve como influência o conto popular do Oriente Médio "Mil e Uma Noites". A música "Pavão Mysteriozo" (vídeo abaixo) foi trilha sonora da novela "Saramandaia", de Dias Gomes, veiculada pela Rede Globo em 1976. Segundo a revista "Discutindo Literatura" (edição 19, Editora Escala Educacional, 2008), "a editora de cordéis Luzeiro, de São Paulo, que publica O Pavão Misterioso desde 1970, vendeu mais de 50 mil exemplares dessa obra, no ano em que Saramandaia foi ao ar."




Mais de uma década após o sucesso de "Saramandaia", em 7 de Setembro de 1988 foi fundada a ABLC (Academia Brasileira de Literatura de Cordel), no Rio de Janeiro. O objetivo era reunir os expoentes deste gênero no Brasil. Hoje, a sede da ABLC, no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, já conta com mais de 13 mil títulos. (O poeta Gonçalo Ferreira da Silva, seu atual presidente, capitaneou a fundação no Rio que, com apoio da Federação das Academias de Letras no Brasil, culminou com a aquisição de sede própria). Dentre os xilógrafos brasileiros pode-se destacar J. Borges, Gilvan Samico, José Lourenço, Abraão Batista e José Costa Leite.



("Mudança de Sertanejo", xilogravura de J. Borges - clique para ampliar)

("Versos que enfeitiçaram o gringo", extraída do Caderno C do Jornal do Commercio
e publicada em 26 de abril de 2011, em Pernambuco - PE - Clique aqui para ampliar)


Em "História do Brasil em Cordel", publicado pela Edusp em 1998, Mark Curran reuniu mais de 300 folhetos que narram em Cordel a história de nosso país. Eles são acompanhados de uma reflexão sobre a temática, sua estrutura formal, seus autores e sua história concebendo a Literatura de Cordel do Brasil como o reflexo dos anseios e sonhos de nosso povo. Em 2010, Curran lançou um novo livro, "Retrato do Brasil em Cordel", publicado pela Editora Ateliê. Nesta obra Curran reconta a "estória" do cordel, "e acredita que o cordel é realmente uma epopéia folclórica-popular do Brasil, o livro consta de dez capítulos ou álbuns (...) Em resumo, é a continuação do namoro sentido sempre para o Brasil."


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Fontes:
(1) SARAIVA, António José. História da Cultura em Portugal. Gradiva, Lisboa, 2000.

(2) "Xilogravura" (www.wikipedia.org/Xilogravura)


(3) "Cordel" (www.educacao.uol.com.br/folclore/)

(4) "Literatura de Cordel" (www.bahai.org.br/cordel/viva.html)